Alice já não mora aqui
"Afinal, consegui esquecer-te. Não foi assim tão difícil, já te esquecera várias vezes, nunca o suficiente, eu sei, mas mesmo assim chutei-te para canto, deixaste de fazer parte dos meus dias, acordo e não penso em ti, adormeço sem a tua imagem a dançar-me, demoníaca, diante dos olhos. O gato da Alice foi-se embora, já não aparece quando quer nem desaparece quando lhe apetece, sou outra vez dona da minha realidade.
Às vezes, penso que não te larguei por pura teimosia, orgulho feminino, aquela mania muito estúpida de pensar que quem nos deixou cair está sempre a tempo de se redimir. Um dia havias de voltar, como fazem os cães, para lamber a mão do dono, os amigos arrependidos ou os irmãos desavindos. Outras vezes, apercebo-me de que não te deixei cair porque me alimentas a veia, és uma droga dura, muito boa, como todas as drogas, mas isso é o que oiço dizer, porque nunca experimentei.(...)
Queria acreditar que te esqueceria quando alguém, finalmente, ocupasse o teu lugar. Mas o coração não é um motor, não lhe podes trocar peças, tirar aquela porque emperrou e substituí-la por esta só porque o faz mais feliz. Ainda tentei esse método, não resultou, encostei à box, ri-me outra vez de mim e descontraí.
E, como reza a história, foi quando desisti de lutar que venci.
O gato nunca mais apareceu, talvez tenha finalmente percebido, tanto tempo depois, que a Alice já não mora aqui. A confusão é o início de uma nova realidade e percebi que sou muito mais feliz num jardim sem gatos pendurados nas árvores, nem coelhos apressados que atiram pessoas para o poço no fundo do qual há uma porta fechada, uma maçaneta que fala e poções que nos fazem ficar mais pequenos ou maiores, consoante o número de gotas.
Agora sou outra vez dona da minha casa e na minha alma vive outro herói que não se pendura nas árvores nem no meu coração, não desaparece, nem troça de mim. Matei a Alice e o gato foi-se embora. Quem sabe, a esta hora, não estará pendurado em qualquer lado a pensar com as suas listas porque é que a história mudou. É que quando o bule de chá explode, nada mais volta a ser igual."
Margarida Rebelo Pinto


4 comentários:
É exatamente assim... Quando decistimos de lutar contra nós mesmos é que encontramos as forças que estavam ocultas em nós!
Belíssimo trecho escrito por essa grande escritora!
Um abraço carinhoso
E eu estou longe...
... mesmo assim ouvi aqui uma explosão :)))
Beijos meus.
A-T.
" A minha casa é o teu coração", Margarida Rebelo Pinto... Antes de vivermos no coração de alguém, devemos primeiro conhecer os cantos do nosso!:)
Gostei da estória do "bule de chá".
Assino embaixo.
bjo, Algodão
=)
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